segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

A merda das PRAXES

"Huu... ela disse a merda das praxes".... pfuuu!
Pois disse... e repito: "A merda das Praxes!!!!".
Aqui há uns anitos... fiz a minha primeira matricula no ensino superior na Escola Superior de Desporto de Rio Maior.
Saí de casa, confortável, deixei a família, para um ambiente desconhecido, uma pequena terriola (fantástica e acolhedora) lá para os lados de Santarém. Por mais espírito aberto, autoconfiança, simpatia e personalidade que se tenha custa sempre sair de casa e montar tenda numa terra onde nada nos é familiar.
Rio Maior, na minha perspectiva, vive muito da Faculdade, para a Faculdade e para os estudantes. É uma terra pequena, cheia de boa gente e muita malta de fato de treino e traje.
Apesar da minha experiência ter durado pouco (porque depois vim para Lisboa) e no fim de contas confesso que foram tempos bem passados, onde conheci pessoas maravilhosas... amigos, nem tudo foi assim tão rosas e imperiais. Os primeiros meses foram difíceis... porquê?
Porque para juntar a tudo... moi foi declarada ANTI - PRAXE!
No dia em que cheguei para fazer a matrícula (como meu papi), fizeram-me um circulo e queriam-me "raptar", pois... nada feito porque expliquei que ainda ia à procura de casa e fazer mais uns Kms até Lisboa e depois logo conversávamos... "podem pintar-me a cara" disse eu (coitada... mal sabia da missa a metade).
Nos dias seguintes e já depois de instalada começavam as aulas. Apareci mais uma colega de casa junto da Biblioteca e já quase nem se viam caloiros de tanta capa preta que estava aglomerada.
- "Oh porca... anda cá!" - uiiiiiii, mas quem é esta "puta" para me chamar porca?? (o meu primeiro pensamento para com uma veterana que se aproximou de mim).
- Bom... tem la calma que eu não sou porca nenhuma!
- Mas não és caloira?
- Sim, e? Nunca te disse que queria ser praxada... estou aqui para perceber se tenho aulas e onde. Tem calma contigo.
- Porca... se não queres ser praxada és anti-praxe! E nunca mais vais conhecer ninguém aqui dentro, nem fazer parte de nada. Estás excluída, OUVISTE PORCA?!!
Bem passou-me tudo pela cabeça, mas respirei fundo e virei costas e andamento dali para fora. Pensei bem no que queria fazer... eu quero ser uma estudante universitária mas sem me humilhar nem ser mais uma "porca". Resultado... voltei a sair de casa para as aulas e mais tarde num dia dessa semana para um bar onde havia uma festa de receção aos caloiros.
(Boa! Festa para conhecer melhor os meus colegas e o pessoal da Faculdade).
Quando cheguei nesse dia à noite à porta do Bar com outra colega, tinha uma receção de miúdos trajados, com ar de mauzões a barrar a entrada.
- Tu não entras!
- Ai não? Mas isto  é um Bar, onde além de estudantes estão outras pessoas... não me podes (falei directamente com o Presidente da Comissão de Praxe) proibir.
- Posso porque fomos nós que organizamos e tu, Anti-Praxe, não entras!
- Eu não sou Anti-Praxe, só não quero que me chames de porca nem me faças andar com o nariz no chão e humilhar perante os Veteranos e os Mestres, como se fossem mais e melhores que eu ou qualquer um de nós.
- Porca, desaparece daqui. Nunca vais ter amigos... as praxes são para integração se não queres fazer parte delas vais ficar sempre excluída da vida académica. Aqui seguimos as regras de Coimbra... nem penses um dia trajar... se te apanhamos vamos rasgar-te o traje todo.
- Hum!?? Hã!???
E foram mais umas quantas aberrações que saíram da boca daqueles meninos nessa noite... Mais uma vez virei costas e jurei que não ia ser uma coitadinha só porque ainda tenho algum amor próprio.
Resumindo, passei lá um Ano completo, fiz amigos e muitos conhecidos. Houve muita gente que nunca me falou nesse ano... fui sempre considerada a anti-praxe.
Uma das minhas companheiras de casa foi uma presença assídua nas praxes, e sofreu horrores com aqueles merdosos. Lembro-me de ouvi-la chorar na maioria das noites e chegar a casa no Inverno encharcada e cheia de porcarias nojentas a escorrer da cabeça. Lembro-me de colegas apanhados à noite pelas Trupes e de lhes raparem o cabelo e fazerem correr todos nus à volta das rotundas. Lembro-me de colegas com olheiras e doentes por dormirem a noite inteira na banheira molhados, de fazerem de cinzeiros para os veteranos.
Enfim... lembro-me de coisas que não gostava sequer de ter visto.
Lembro-me de quererem fazer de mim um ser desprezível, quando no fundo os dignos de desprezo eram eles.


A humilhação não integra ninguém... a amizade e carinho sim!
Os pais que permitem os filhos saírem de casa para estudar, para lhes dar uma vida melhor, um futuro diferente e que muitas e tantas vezes se esforçam para isso não fazem ideia em que condições andam os miúdos nestes primeiros meses.
As coisas nem sempre correm bem, nem sempre se sai só com umas feridas no ego, umas gripes e uns empurrões.
Praxe é suposto ser uma brincadeira, umas piadas e pinturas, uns penicos na cabeça e lama nas canetas. Praxe é suposto fazer rir... o traje existe para sermos todos iguais.
O pior é que mesmo trajados não somos todos iguais... às vezes continuamos a ser menos... os com menos matrículas, os com menos estatuto... e os com menos sorte.
Às vezes nem sempre corre bem...
Às vezes acontece... o MECO!





Sem comentários:

Enviar um comentário